.confinamento 16.

Convívio
Poiesis
Expectação
Dubatti diz, em “O Teatro dos Mortos”, que estes são os pilares principais do teatro.
Comprei esse livro há uns anos, junto com outros mais sobre teatro. Queria devorar aquilo que escolhera como ofício.
Comprei sem saber que seria um dos meus livros preferidos e ajudaria a entender um pouco do motivo de amar tanto essa arte.
A quarentena basicamente aniquilou os três pilares. Torna-se impossível realizá-lo. E, como bem sabemos, tentá-lo agora é tentar qualquer coisa menos teatro.
Não é possível reinventá-lo no momento presente.
É essencial viver intensamente esse imenso luto – da humanidade e do teatro.
É preciso pintar o rosto, juntar armas e preparar material para o futuro – quando as ruas forem liberadas e pudermos ocupá-las.

Dubatti diz, também, que teatro é a arte do luto. Dada sua essência efêmera, cada apresentação é única, nasce e morre em si mesma. Ir para o camarim quando tudo acaba é o início de um velório. E no dia seguinte, se houver, o primeiro pisar no palco é um parto, um nascimento. E o ciclo se repete.Para além disto, é a arte dos mortos por trazer em sua essência a potência de resgatar a história, memória e espírito dos que foram antes de nós e morreram para que a existência fosse um pouco melhor.O teatro carrega consigo um cemitério nas costas. Carrega seus mortos. E não por não querer ser leve, mas por clamar por justiça. E justiça é, também, manter vivas as vozes de quem não pode mais gritar.
Teatro é homenagem. Teatro é resgate. Teatro é força. Teatro é resistência. Teatro é reparo histórico. Teatro é grito brutal em meio ao silêncio dos omissos.
Teatro é das coisas que mais me fazem falta nessa pandemia.
É que eu existo como ele: no convívio, na poiesis e na expectação.

Maria Carolina Ito

Escrever é sentar-me à mesa, frente a frente, com meus demônios.

Escrever é sentar-me à mesa, frente a frente, com meus demônios. Que, a saber, não são sempre maléficos. Aprendi, enquanto águias rasgavam minhas retinas com suas garras, que não há aprendizado sem dor. Então, sento com eles sempre que me é possível, sempre que me é urgente. Assim, escrevo quase todos os dias. Enfrento-os, por vezes pacificamente, em outras indigestamente, em várias outras suplicando deixar-lhes sozinhos jantando minhas entranhas. Mas não fujo mais, aprendi a acolher um a um, afinal, são partes de mim. Como o Lobo da Estepe, milhares de portas me constroem e é necessário abri-las para ver o que há além. Se não as visito, não me visito. Se não me visito, não me conheço. Se não me conheço, não me encontro. 
Quando me encontro: escrevo.

Maria Carolina Ito

Levar vida sem dissabor é não levar.

Levar vida sem dissabor é não levar. 
A dicotomia existe porque só se conhece o positivo depois de entrar em contato com o negativo. 
Quanto maior a sombra, maior a luz. 
Respeitar os vales é tão importante quanto comemorar os picos. Onda só se forma se tem os dois, senão piscina.

Maria Carolina Ito

Seu falo me abençoa, então eu calo

Seu falo me abençoa, então eu calo
Mas a água que sai de ti não é benta 
E crer que é, considero o cerne de toda a desgraça 
Não como tua hóstia, não ajoelho em teus altares, não agradeço tuas graças
Não alcanço nada em tuas alças
Não odeio todos os homens, nem nada que o valha
Odeio aqueles que alastram o lastro
De guerras, mortes, violências 
Aqueles que içam seus mastros
Denominam-se mestres
Monstruosos coitados
Sei que de mim têm medo
Tenham mesmo
Porque enquanto blasfemam que vim de tua costela;
Como se fosse algo baixo
Dou risada no centro da igreja, olhando nos olhos dos anjos 
Porque até na calúnia que inventaram
Nós temos poder de nascer de um osso
Metamorfoses inatas
Nós brotamos em qualquer lugar 
E mesmo mortas te assombraremos
Eu não como tua hóstia, não ajoelho em teu altar, muito menos agradeço tuas graças
Eu dou risada da tua superioridade porca e falsa
Eu cuspo em teu crucifixo fálico
Eu te mato com meus próprios ossosEu não odeio todos os homens. Longe disso.

Maria Carolina Ito

A cor da rua em baixíssima saturação

A cor da rua em baixíssima saturação o vento corre gelado pelo meu rosto as folhas abandonam a copa das árvores atrasadas demais para partir dão adeus por puro impulso. Não é muito clara a divisão da rua e da calçada. Eu ando na rua. Ao meu lado anda meu passado de múltiplas faces. Me assombra. As ruas bem vazias e por vezes cheias de mais. Ninguém. E então são muitas pessoas que andam no sentido contrário ao meu. Tudo que passa vai de encontro à mim estou sempre no sentido contrário de tudo as pessoas as folhas o vento. Ao meu lado apenas o passado sou a única que caminha para frente ou estou indo para trás? Ninguém se toca embora aqueles dois lá no fundo estão se tocando você viu pergunto ao passado. Sinto pavor. O passado é uma criatura inóspita de múltiplas faces que toca o meu corpo crua e intimamente. Odeio que me toquem. Quando há pessoas há sempre pessoas em fluxo não param embora agora uma parou. Um homem vestindo as roupas da minha avó ou a minha avó vestida de roupas de homem não pude notar a diferença. Passo por ela quase a esbarro sinto pavor muito pavor por favor não me toca. Ele ri de mim fita à mim e ao passado com olhos delirantes como se eu fosse a única que não soubesse o segredo. A rua vazia novamente alívio agora somente eu e passado persistimos. Barulho. Olho para o lado. Um palhaço. Odeio palhaços. É um homem que acabou de ter filho está trabalhando como palhaço para sustentar a família. Mando um beijo. Continuo odiando palhaços. Várias crianças se aglomeram em volta dele. O passado pega na minha mão eu digo: por favor se você me abandonar que seja no momento em que eu estiver distraída. 

Giovanna Paiva