O vendedor de petecas

O vendedor de peteca era velho e aparentemente sujo.
Deixava as petecas em uma linha reta, na frente do canteiro onde ele mesmo ficava sentado na grama esperando os compradores.
Ele mesmo parecia uma peteca. Usava um gorro enorme e redondo e roupas coloridas e encardidas, como as penas do brinquedo.
As pessoas passavam como se ele não existisse, assim como faziam com os hippies que vendiam outros cacarecos, mas não tiravam os olhos de seus movimentos quando ele andava em sua direção, pegando o lixo que essas pessoas jogavam no chão para não sujarem sua casa: a rua.
Não gostavam dele e ele sabia, mas não era ele o invasor.
Não se importava de sair de seu posto por motivos importantes, por isso ia várias vezes brincar com qualquer criança disposta a interagir, ou atravessava a avenida para assistir à apresentação de algum músico de rua que precisasse de público, mas, no final, não importa quem visse essas e outras coisas que ele valorizava mais que seus poucos ganhos, ele continuaria sendo um vadio. Apenas um vendedor de peteca.

Vitória Fava

Sentia as unhas cumpridas passeando por seus cabelos. Calmamente, aquele carinho embalava-lhe o sono. Não queria dormir, apenas sentir aquele toque, lembrar da sensação que toda aquela doçura lhe causava.
Sabia que ela não faria nada além daquilo. Sabia que, se não fizesse nada, nunca saberia o que estava acontecendo. Aquele jeito que ficava calma em seus braços era estranho, era novo, era algo mais. Ela tinha certeza disso e aquele parecia o momento para perguntar.
O carinho fez um caminho até o braço descoberto e parou para puxá-la para mais perto, quase que sem força, antes de passar para a cintura coberta pela saia azul.
Toda a coragem de perguntar o que era tudo aquilo se foi. E se sua suspeita fosse só coisa da sua cabeça? E se ela se afastasse? E se elas se perdessem?
Não suportaria. Resolveu não fazer nada. Talvez tenha perdido algo muito bom, mas ela não sairia do seu lado tão cedo.

Vitória Fava

Quando dizem que Deus é amor, eu me pergunto de que deus estão falando.

Que amor é esse que me joga nas ruas como um pedaço de carne? Que punição eu mereço se ele criou a regra e meu pecado? Fácil dizer que o errado sou eu, quando nem mesmo quem eu ofendo parece se importar.

Pensei em acreditar que deus estava morto, mas não acredito que ele sequer descansaria tendo criado um inferno para tantas pessoas.

Me disseram que eu era o meu próprio deus. Seguindo o que me foi ensinado sobre deus, ele tudo sabe, tudo vê e tudo pode. Eu não consigo sequer andar na rua sendo respeitado pelos homens que queriam me foder, e não se deixam admitir, me xingando. Como um deus a mim mesmo, sou tão inexistente quanto é o mar ao céu.

Parei de acreditar nesse deus. Se ele existe, foi com uma crueldade sociopata que tudo foi organizado. Foi ele quem inventou o pecado e a crença do inferno; seus caçadores e suas prezas. Foi ele quem colocou todo esse conflito que não conseguimos resolver e colocamo-os para fora, para cima de alguém.

Por fim, entendi que, numa tentativa de explicar essa forma de deus agir para conosco, a televisão nos faz deuses. Olhando o que interessa e justificando nossa apatia com a distância de uma tela.

Quando está apagado, o céu reflete a mesma luz que uma televisão desligada.

Vitória Fava

O cano da arma que me mata ainda está quente na sua mão.
Mão que decide ainda se vai dar outro tiro ou não.
E o coração que derreteu endurece novamente, com o medo daqueles que acariciam o amor que eu deixei existir.
Preciso esquecer o amor que te dei.
Preciso te odiar.
Preciso me ver livre
Antes que eu morra.

Vitória Fava

Olá. Sou seu computador.
Eu venho estado com você nos últimos tempos e já passamos por muitas coisas. Vimos altos filmes pornôs juntos, alguns seriados e nos alimentamos diariamente de fofocas de Facebook. Conheço a sua vida como mais ninguém. Claro, você tem seu coleguinha de bolso, mas aposto que ele não conseguiu falar com você ainda, não é? Sem contar que, desde o dia em que o comprou, está de olho em um novo. Eu sei que, com o tempo, vou ficando obsoleto e também serei substituído, por isso resolvi falar com você hoje.
Acalme-se. Não vou te contar sobre nenhuma traição, muito menos ajudarte num assassinato, como ouvi de outros utensílios que o fizeram… E, caso esteja pensando em cometer tal crime, recomendo que não me diga e nem me use para procurar como se livrar das acusações. Também não venho lhe avisar sobre uma inteligência artificial que pretende dominar o mundo, frisando que eu mesmo não o sou. Não venho te dizer que suas definições de vírus estão desatualizadas, apesar de não recomendar o meu uso para acessar o seu banco ou fazer compras, nem venho te contar do fim do download de três dias que estava rodando.
Vim te dizer que hoje será um dia lindo lá fora. Aproveite que eu mal iniciei para me desligar. Você não precisa estar conectado o tempo todo. Eu, com o uso, continuo a mesma coisa. Fico um pouco mais lento, sim, mas isso não me tira nada, afinal, eu sou apenas uma máquina, mas você precisa viver e conhecer um mundo do qual você reclama e que tão pouco sabe.
Pega esse celular que está no seu bolso e liga para aquela pessoa, você sabe bem quem é, e chama para fazer qualquer coisa. Se não der certo, pelo menos ela sabe que você viu esse dia lindo e pensou nela. Chama seus amigos, alguém que você não vê faz um tempo, e vai pra longe da minha tela. Chegando lá, larga o celular e converse e brinque olho no olho. Eu sei as resoluções que você fez na virada de ano. Eu não podia te ajudar nessa, amigo, então me esforcei para poder falar com você: você não precisa de mim para viver a sua vida. Vá e só volte para guardar memórias no bom e velho bloco de notas, ou algum trabalho que você precise digitar, claro.
Eu posso esperar uns dias para ser ligado, mas suas relações precisam ser regadas. Vá viver.

Vitória Fava

Fragmentos de ninguém n.4

To me sentindo pelada.

Quero mais!
O risco na carne,
a tinta na veia,
o olhar de desprezo de quem não entende.

O gosto da dor.
O gosto da proibição do contato e da droga.

 

Eu gosto do gosto da proibição.
Eu gosto do sexo.
Eu gosto da droga.

Eu quero mais.

Vitória Fava