De uma gripe que se fez bem vinda

Sento na cama vazia. A brisa vem e leva minha saúde em suas costas, como um ladrão que não se faz sentir até o último instante.
Vivo a perda com a mesma surpresa da criança que descobre a verdade sobre papai noel. Nós duas ainda esperamos, alegres, pelo natal, mesmo sem sua magia. Parece que fica ainda mais doce a mentira quando sabemos da verdade.

O doce do açúcar faz o limão que engulo mais suportável. O limão me salva da dor de garganta, dor esta que me ataca mais forte com o doce do açúcar. Fazer-se doente para que a cura seja mais apreciada é algo comum da nossa espécie.

Deito na cama vazia. Tranco as brisas e as surpresas para fora enquanto aprecio o veneno doce da drogaria.

Vitória fava

Um de maio

Abri os olhos e a vi ali. Desligada, frágil, solta num sonho leve e com um sorriso no rosto. Não sei se sonhava ou se seus lábios tinham aquela curva mesmo enquanto dormia.

Estava longe dos meus  problemas e incertezas.

Estava perto de mim.

Estava perto dela.

Estava feliz.

Aqueles olhos redondos se abriram num instante, como que para encontrar os meus. E o olhar foi certeiro: inundou o quarto com a risada que soltou.

Depois veio, agitada, para o meu cobertor. Se encolheu nos meus braços, me deixou sentí-la ali.

Viva, alegre, quente e minha.

Vitória Fava

Torno

Insuficiente.

Incapaz.

Descontrolada.

Descuidada.

No auge da minha boa vontade,

chão.

Desnecessária.

Dependente.

Fraca.

Afinal, eu estava alí

Pronta

Para

Ajudar

Ou apanhar?

*                    *                    *                    *                    *                    *                    * 

Vitória Fava



peças da série ‘as falas que não direi’, que estará exposta em breve no Instituto de Artes da Unes

*                    *                    *                    *                    *                    *                    * 

Vitória Fava