As árvores andam depressa
e depressa andam os prédios
Enquanto ao longe me espera
porquanto eu venho de longe.

Mas… Um minuto…

Estou parado, sentado,
escrevendo nas pernas cruzadas,
entediadas que a esperam vir,
Não o contrário!

São Paulo empurra
os 400 quilómetros
Itápolis me atrai
Por todos os pedágios
Fazendo com que a terra gire
As árvores e os prédios corram
Velozes e borrados, lá fora
na distância que separa
Tudo anda parado
e parado tudo anda…

Onde fico eu?
Onde estão meus sonhos?
Ficaram em Campinas
ou os esqueci em cima da mesa?

Nessa viagem
Só não anda o tempo
– Congelado –
Que espera-me chegar
Para tirar seu atraso,
Correr como nunca
Rejeitando quando rogo para que pare
pra parar só quando quero que corra.

Quando saudoso
Já de trouxa feita e
Bilhete de volta na mão,
Percebe então o seu cansaço
e congela seus ponteiros indefinidamente;

Indefinidamente dorme de novo
na poltrona ao lado da Empresa Cruz,
Outros 400 quilômetros
Em sono profundo
pras pernas entediadas
pra sonhos saudosos
De uma próxima vez
De uma outra Itápolis.

Jorge Augusto

Eu não quero e não sou um totem de madeira maciça oca talhada.

Ninguém continua o mesmo
Parado, imóvel, estático.
Nem mesmo carregando para sempre
Sorriso triste e simpático.

Dura foi minha carne nodosa
Depois do tanto calejar
Minha essência continua gasosa
De hora em hora vem transpirar.

Os outros vivem os dias
Eu também sei que vivo
Procuro nas dores antigas
Cortar os ramos de urtiga que não mais cultivo.

Hoje sei que viver na graça
Faz de um adjacente mim também feliz
Não na volta do mundo, e sim próximo ao rim
É onde meu umbigo se faz matriz

A vida é um bem precioso demais para atores de conveniências sociais.
Onde quem ganha somente são aqueles que continuam com suas próprias leis.
Domini, Deus, Nature, Física.

Arranca desse teu mau humor um pouco de felicidade.
Arranca dos outros sorrisos sinceros.
Arranca essa roupa e para de se insinuar.
Arranca desse peito uma gargalhada sincera.
Arranca de si o passado passado.

Leandro Mello Barba

A irreprodutibilidade do irrepetível autorretrato do único

aquele
jeito
de gesticular
com dedos
celestes
regendo
estrelas
e de trançar
as pernas
de serpentes
nos pés
das cadeiras

aquela
boca
de caninos
cadentes
de comer
cometas
e falar
faíscas
com línguas
de labaredas
flamejantes
de fogueiras

aqueles
ouvidos
videntes
de escutar
escuros
lamentos
de meteoros
e devorar
luminosos
segredos
de hieroglifos
nas íris
das horas
com olhos
de hórus

aquele
corpo
de hierofante
de cavalgar
o dorso
louco
do indirigível
de apolo
e digerir
com estômago
mágico
os infinitos
instantes
de ouro
de oroboro

aquele
centauro
alado
eleito
pra reinventar
o sol
no peito
vomitar
luz
e voltar
ao solo
como
outro
pégasus
trágico
no com-
passo
de um
voo
em falso

aquele
movimento
solo
raro
de outro
ícaro
a cair
no colo-
labirinto
do tempo-
minotauro

Paulo César de Carvalho

Transição (14/7/14)

Lave-se;
Agora é a hora!
Entranhe-se,
Em sossego…

Reserve-se,
Pelo silêncio obrigado.
Pela energia
De si mesmo.

Livre-se;
O uso é livre.
É teu;
É seu.

Esvazie-se;
Seja o Ser oco
Misterioso
Bobo.

Investigue-se
Não há o tempo
Há só a consciência,
Há ti mesmo.

Silencie-se
Nesse universo
Espalhe-se!
Semeie-se!

Renan Paz

Debaixo da Limeira

Imagino nós dois . Em um parque só nosso. O sol ilumina e aquece tudo que vê pela frente. Trocamos olhares .Começo a suar ;coração batendo forte . Nossos olhos se amarram; vejo tudo . É profundo. Sinto prestes a ter aquilo que os franceses chamam de “la petite mort”.
Estou prestes a perder meu sentido quando acomodamo-nos na sombra de uma limeira.
Por que quando estou sozinha com você me sinto preenchida?
Quero te perguntar.

O sol começa a se pôr. O céu se torna o perfeito símbolo de nossa união. As palavras não servem mais. Mas a boca , a língua trabalham.
Onde está você minha barreira do mundo ?
Quero te perguntar .

Admiradora de Pedro Barreira

A beleza pelos olhos de quem tem fraqueza

Gosto de quem ama a beleza
De quem não se curva diante de vossa alteza
Gosto de quem não sabe da tristeza
De quem sabe que é angustiante a certeza

E olha que eu tenho certeza que é pecado a fraqueza
Que sou considerado um acabado por estar algemado
Que é fraco quem acha que é macaco
Que é um talento nato, ser um cara chato, esse é o boato

Que eu bato, bato
Na frieza que arranca pedaço
Que eu bato, bato
Com sutileza peço espaço
Que eu bato, bato
Com delicadeza eu dispenso abraço
Que com clareza, com certeza
Sou palhaço por que canto sobre tristeza

Existe um boato que sou triste
Que é brincadeira, é baboseira
Rimar, a frase acima, com esse clima daqui de cima, a chance é mínima de dar uma boa rima

Olavo Rosa

Tempo Mundo

Hoje eu sou
E assim vejo o Sol,
Girassol,
Girando e cantando
Em mi bemol,
A realidade torcida,
A realeza,
A mentira
Daqui Memphis,
Da cor mais intensa
A que a vida é propensa.

Ontem fui cacho,
Servo, capacho,
Capenga,
Brasa fria,
Bruma sem companhia.

Amanhã serei
Certo, soldado,
Sofia,
Luz do dia,
Esperança, calor,
Nostalgia,
Nascimento, morte,
Martírio, um engano.
Mero reflexo
Do viver cotidiano.

Vítor Soares

 

Liberte-se

Abri meus olhos hoje
A luz feriu minha retina
Continuo caminhando sem rumo
Não tenho nenhuma arma
Apenas um amigo,
Um amigo.

Sonhe os sonhos que nem mesmo são seus.
Encontrarei uma saída.
Perceba o quão frio são os corações.
Olhe para dentro de si,
Conte-me outra história.

Nas planícies, nos vales, nos morros
Milhares de vozes pedem socorro
Enquanto isso, na cidade
Todos dormem tranquilamente

Sinta o maravilhoso poder
De não ter poder algum
O vento quer dizer algo
Que se perderá no tempo

Já está na hora de esquecer
O que nem os anjos lembram
Nós nunca morremos realmente
Está na hora de ser livre

Venha do jeito que você é,
Deixe sua mente,
Conte-me tudo
Perceba como está quente lá fora
E tão frio aqui dentro
E estas correntes, para que servem?
Liberte-se

Christian Frederico