Roda baiana

Roda que roda baiana, nessa música bonita que finge que sabe da aflição que proporciona um punhado de cacos de vidro com gotas de sangue. Pisa que pisa menina, nesse chão de terra batida vermelho-roxa com passos marcados e amores largados. Esquece do par e já pega noutro já dá duas voltas e chama pra dançar (não se envergonhe) (não queira que os outros pensem algo). Tu que és bonita como todas as outras foi feita pra isso. Não tenha vergonhas das suas façanhas. São essas as coisas que te deixam mais reluzente quando sorri. Desembaraça a tua condição aflita e dê um beijo naquele que te chama a atenção. Afasta o mau agouro e o homem de bota de couro. Ele mal sabe do que virá amanhã. Toma dois tiros nas costas e xingam de filho da puta porque achou que sabia demais. Menina tu que pensas que a vida é básica saibas que é mesmo. Não importas o que esses falastrões dizem. A tua dança é linda! Teu cheiro de suor é maravilhoso! Tua concordância é assentida com a minha erroneidade. Não sejamos idôneos, menina, é de ti que eles esperam a maleficência que proporciona mais alegrias, mais choros e mais vitórias combinadas com derrotas. Rasga esses girassóis presos em quadros e joga eles no mundo; tatua teus braços com essas pétalas. Chuta o balde, chuta o pau da barraca, chuta o pau. Faz aquilo que te dá gosto de viver. Aquilo que te brilha os olhos e me relembra o quão gostoso é estar na terra de ninguém que é esse chão de terra batida às duas da manhã mal acordada adormecida com cheiro de orgasmo.

Bruno Panhoca

 

GênioLouco

gênios
loucos
gêniosloucos
internados em manicômios
por tantos anos
deixados à mercê
da decisão de um
médico
psiquiatra
fumante
convencional
toxicomâno
pródigo
versátil

uma pantomima
de um ator simulador da artificial realidade
eletrochoque e
paus-de-arara
baratas
ratos
esqueletos
asas cortadas por aqueles que se dizem certos
quem é você
e o que faz aqui
sou um gêniolouco
sou a verdade
sou a escória
e a história

pescoços desmembrados
braços cortados
baços deslocados
massas fálicas
o falo
esparramado
pisado

não

dig
nidade


apenas
as
penas

Bruno Panhoca

bismorango com chocolate

O homem quer saber se tem vida em marte
Tem.
E depois
?
O homem quer saber se tem vida em saturno
Tem.
E depois
?
O homem que saber se tem vida em jupiter
Tem.
E depois?

Alguns chamam de progresso
Outros chamam de ganancia
E essa é a maquina humana

Bruno Panhoca/Rafael Abrahão/Heitor Pires

Quem dera

Hoje eu saí de casa e deixei meus sapatos. Não calcei qualquer chinelo, pantufa ou meia. Fui com meus pés completamente descalços. Quis sentir aquilo que dizem ser a vida. Vesti uma camiseta de mangas longas e uma calça, pra não ir completamente despido. Deixei brincos, pulseiras, óculos e mentiras. Deixei tudo. Fui quase tão nu quanto vim ao mundo. Quase. Quem dera por um descuido você assim me visse. Quem dera por um minuto eu tivesse a chance de fazer você saber que minha nudez é tua. Ah… Quem dera! Reclamo sempre do “e se…” mas sempre esqueço do “quem dera”. Gosto de pensar que tudo é incerto até que seja certo. Essa frase que parece vir de uma criança de cinco anos me encanta, com a sua pureza e visibilidade. Não acredito no acaso, até que ele aconteça. Não acredito em astros, até que eles me provem algo. Não acredito em destino, até que ele se apresente. Não acredito em nada, até que você apareça.

Bruno Panhoca

Racional

Deixa que eles pensem o que for. Ninguém sabe no final o que sentimos. Seja o que for, sempre será. Deixa rolar, sinta esse momento. Nós dois aqui, íntegros, plenos, sentados nessas telhas molhadas, olhando pra lua que vira uma “super lua” com você ao meu lado. Não trague sua vida como um cigarro, deguste. Esqueça que realmente há alguém lá embaixo se preocupando, infelizmente não importa agora. Você me guia. Eu te guio. Nos guiamos escondidos numa escuridão perpétua. Nossa escuridão. Peço que me perpetue, e me faça sua eternidade, ao menos enquanto durar, como já dizia o poeta. De poucas palavras eu tento ser, mas não consigo. Quero ser teu mistério e sou teu livro aberto. Quero ser teu filme favorito. Acalma minha insensatez e não deixe que exista um mundo racional. Mira a irracionalidade dos nossos sentimentos. Os nossos fogos de artifício. Não sinta saudade desse tempo que está por vir, isso nos motiva a pensar que na frente terá um fim. Não adiante nosso sofrimento. E não deixe que eu te diga o que fazer. Só deixe que eu te convença, como você me convence.

Bruno Panhoca

Intragável

Ando, calmo. Ando calmo. E calmo, ando. Pelas ruas afastadas de uma civilização póstuma. Que disseram deixar de existir há poucos momentos. Tomados por certa vontade de inovar. De recriar aquilo que diziam ser o passado. Ando no meio daqueles que me julgam e me libertam. Que me proporcionam o mais certo dos futuros incertos, e me apoiam nas incertezas que me levarão aos caminhos menos trilhados por aqueles que sabem das coisas. Aqueles caminhos inexplorados, vastos (como o meu coração), pouco entendidos. Apoiam-me e, não por falta de vontade, me deixam só. E sigo só. E vou só. E conto das experiências orgulhosas batendo no peito dizendo que sou mais. Sem saber que – não sei se por ingenuidade ou ignorância – eles sabiam a todo instante que eu voltaria. Poucos me contaram a verdade, poucos me disseram que os caminhos trilhados pelos inocentes são aqueles que os experientes trilham e conhecem. São aqueles que os oportunistas tomam e dizem que não conhecem. São aqueles que o trago megero de um cigarro podre levam. Poucos me disseram a verdade, que o caminho certo a trilhar era aquele e não este “vá pela sombra” os hipócritas disseram como num brado retumbante. “Cuidado” os tão-sabidos falaram. Não acredito mais neles e em suas falácias e em seus sofismas e em suas vitórias derrotadas. Acredito nas poucas coisas que me disseram ontem: que o caminho certo a trilhar é este, não aquele. Basta duas cervejas de teor alcoólico baixo. Basta dois cachorros engarrafados. Basta duas reflexões pensadas na beira da cama. E vejo. Que o pouco que sei. É muito. Perto da intragabilidade vivenciada nos escombros da derrota.

Bruno Panhoca

 

Corram

vagabundos
corram
a hora de ir embora chegou

seus pais lhe esperam
deitados no divã
e vocês aí
num canto de bar
onde mal há ar
se não essa fumaça fétida
que vos mata num piscar de olhos

românticos
corram
a hora de ir embora chegou

seus companheiros lhe esperam
deitados no amanhã
e vocês aí
numa cama de motel
onde mal há amor
se não essa luxúria barata
que vos consome num piscar de olhos

moralistas
corram
a hora de ir embora chegou

seus discípulos lhe esperam
deitados num berço de mentiras
e vocês aí
no meio da rua escura
onde mal se vê o que vocês tanto falam
se não um reduto de imoralidade
que vos induz num piscar de olhos

hipócritas
corram
ou melhor
fiquem
porque como me disseram algum dia
o mundo é de vocês
e de sua hipocrisia.

Bruno Panhoca

Fluxo

Seus olhos sensíveis me lembram coisas nunca vistas antes numa maré de pensamentos mareados em meus olhos que mal compreendem as milhares de coisas antes conhecidas pelos poucos que as viram e não percebidas pelos meus pensamentos e olhares e maldades que possam surgir daquelas coisas, só sei que seus olhos me dão um refluxo e frio na barriga e mesmo por pouco tempo nos vejo juntos escrevendo nossa história nas mais tortas linhas e mais loucas histórias mas vejo nem que por cinco minutos que o que resta é um ao outro e não acredito no país das maravilhas muitos menos você será um oásis num deserto de hipocrisias mas será a maravilha de meu país desse mundo louco eu terei a loucura mais parecida com a tua e cantaremos juntos nossos pensamentos pelas ruas abandonadas de um centro escuro e sujo e veremos as coisas mais bonitas ainda que feias aos olhos dos outros e seremos como fluidos que se misturam mas não perdem a essência e uniremos nossos corpos no amanhecer entardecer e anoitecer e diremos coisas nunca pensadas ou escritas por qualquer boêmio e nos apaixonaremos a todos os instantes e morreremos e renasceremos. juntos.

Bruno Panhoca