Gordura em copo

Gordura em copo d’agua não dissolve. Gema. Pra mim. No meu ouvido.
Tempestade em copo d’agua transborda. Clara. Podia ser seu nome.
Geme… Clara! Você se joga pra estourar essa prisão de casca. Casca
grossa e conteúdo insosso. Flutua feito pássaro morto e se estraga.
Magra e cega. Seu olho vê mas não vê enxerga mas não entende
compreende repreende desentende sem saber e grita não vai ter golpe
grita fora grita vai tomar no meio do seu cu seu filho da puta. Mas…
Nem lembra porquê. Sangue nos olhos, Clara. Você tem sangue nos olhos
e me desbrava. Me tenta me intenta sabor de… Menta. Esquenta. Mania
marrenta. E depois de toda a gritaria estapafúrdial você volta e…
Quebra! Morre. Na frente do puteiro de Deus. Adiantou, Clara? Adiantou
seu show? Acabou que virou mais uma, escarrada e pisada na frente de
uma igreja.

Bruno Panhoca

*em processo da Antropofrei

Bela

às vezes me deparo
com poucos pensamentos
poucos de tu
tu que és bela.

tu que és bela
nasceu bela
e assim será
no nome e na face

no âmago e
na classe.
nas fintas da vida
minha querida.

te esqueças
do dia em que eu disse adeus
lembres que agora venho
e digo junto com meu corpo
“somos teus”

 

Bruno Panhoca

 

O voto (anti)democrático

Pelos meus filhos
meus netos, bisnetos!
Pelos meus eventuais descendentes!
Pelos meus filhos bastardos que nunca reconhecerei!
Filhos de tantas amantes que comi enquanto dizia que precisava me desestressar (a vida me explora).
Pelos meus filhos que nem sei que existem!
Pelas putas que maltratei!
Pelos viados e lésbicas que respeito, mas longe de mim, e pelas travestis que espanquei!
Pelos pretos e pretas que não quero que frequentem o mesmo lugar que eu!
Pelos transexuais, escória da sociedade!
Marginais!
Pelos bandidos, que a Lei de Hamurabi tenha piedade de vocês, corja!
Pela minha mulher, razão do meu viver, obrigado pela louça lavada e camisa passada e por saber me entender que quando bebo eu bato, mas ainda amo!
Pela representatividade na política!Pelo extermínio do povo indígena e de todas as minorias!Hoje meu voto vai para a democracia e para o meu Brasil, que Deus continue a nos abençoar como sempre!

 

Bruno Panhoca

*em processo da Antropofrei

Parti do Alto

Parti do alto

Ssssssss…. [dissolvo]

E corro, molho, olho, como, bebo meus fluidos e os fluidos deles. Tem gosto de água importada, fina, resplandecestes, retumbante, marcante, fumante. E importada, do céu. Do mel do céu do méu do téu. O nosso fel. Aquela ali chama Raquel a outra Isabel, é dez reais sem cu. Chama o próximo por favor. Delícia, te comia inteira. Vamo brinca de mamãe-papai. Morena, eu te faço mamãe e amanhã fujo. Vou correndo e nem olho pra trás. Filho viado eu não admito. Evito por que fico aflito.

Não tenho medo de xoxota

Já tive medo de piroca

Pinto é gay

Não gosto disso

Essa palavra soa mal e Ele não gosta

Qual é a cor

Em traços escorridos me fiz linha. Desenhei linhas curvas sinuosas e tortas. O destino escreve torto por linhas certas. Ou o contrário. Espalho gotas de tinta preta azul e rosa. Misturo todas e confundo. Deixo rastros deixo traços deixo maços. Escassos os maços. Reclamaram de novo, acredita? Meu ser existencial, meu eu superior, deixa de compreender como a força maior não age nos casos pequenos. Ou age. Como milagre. São mil agres. A gente espera. Eu creio no milagre e escolho que prefiro os de baixo. Os que sussurram enquanto durmo. Os que me assustam no meu Estado Crepuscular. Você que fala de primeiras opções, você que esquece de nossas ilusões. Suas cores são rosa púrpura e violeta. Você transcende os raios alfa beta gama e ama. Suas cores quentes acendem e ascendem a minha quentura esquisita. Pareço panela de pressão, prestes a explodir. No entanto, como exímia cozinheira você alivia e deixa que saia esse ar enlatado encrostado preso. Mato. E descanso no seu descaso. Deitados. À luz do que vem pela janela.

Bruno Panhoca

Transgressor

Eu gosto do jeito que a gente reflete do chão ao mar. Quando você chega a se queixar se o que mora em mim é realmente nosso céu-mar ou algum outro lugar tenebroso. Eu levo dois segundos pra responder, dois pois é o tempo que aguento esperar nesses momentos em que seus olhos brilham mais que copo lustrado de domingo depois do almoço. Eu olho no fundo desses copos e repito o que eu nunca sei parar. Copo meio cheio… Futuro desenfreado e o tempo – nosso tempo – que parece mais dos pássaros da onde eu moro, voam… rápido! São assim em decorrência do que comem, semente que voa. Nosso céu-mar tresloucado. A junção perfeita, o ajuntar, o misturar, o colaborar e o compartilhar. Morena… que pecado é esse que você comete no meu âmago? Na pequena semente que mora no meio do estômago e voa quando você aparece, fazendo cócegas e me aproveitando ingênuo. Esquece não… você entenderia se eu te contasse em voz baixa baixinha, quase sussurrando de baixo da luz do abajour.

Tuco Monteiro

Tártaro 

Bastava dois suspiros. Ela entendia e bufava. Os dois suspiros entregavam todos os pensamentos. Ela lia meus olhares e o compasso de minha respiração, além de contar meus 120 batimentos por minuto. 500 piscadelas por minuto. 350 expressões faciais irreconhecíveis ao olho humano. Mas ela lia. Ela me lia e sabia. Cada risada, cada cara-lavada-de-pau, ela via. Os suspiros bastavam, ela os comia. Foram dois, três, quatro, mil. Lágrimas correm, mas o olhar inerte permanece. Ela via, ela me devorava. Digeria meus pedaços de carne, enquanto seu estômago ativo dava banhos de líquidos ácidos. Meus pedaços se separavam, se dissociavam – pouco a pouco – e lentamente eram absorvidos pela corrente sanguínea, quente, líquida, fluidez do mar; intensidade do mangue. O vermelho sangue me era enquanto eu o era. Éramos, Eros quis. Éramos e tornamo-nos essa criatura bizarra de quatro braços (os dois em excesso brotaram de nossa cintura), quatro pernas, duas cabeças…. O ser mais grotesco que tive a infelicidade de ver! No entanto, à medida que o monstro caminhava, seu corpo derretia, escamava e escorria, tornando-se em algo belo. A caminhada de quatro, as súplicas a deuses que sequer revelavam-se, fizeram-no belo. Completamente belo. Todavia, invisível. Era luz, enquanto força energética irracional, mas positivo. Sua energia transformava frutas podres em exemplares magníficos e suculentos da espécie. Caretas ácidas adocicavam-se. Afinal, quem era o ser transformador da ética? Da moral subumana? Quem era a amostra do tártaro que ascendeu ao Olimpo? A divindade filha dos titãs refém da deusificação, da adoração. Era, ou éramos, o centro. O sol, de nosso pequeno universo. Moldável, flexível, maleável, complexo, monstruoso, arrebatador.

Bruno Panhoca

Luz apagada

Eu vou contar uma história. Então, por favor, faça silêncio e apague as luzes. Não quero que você olhe nos meus olhos enquanto falo. Tenho vergonha… E um pouco de medo.
Era fevereiro. Ventos quentes e úmidos, sol cansativo mas ameno de vez em quando. E a sombra poética, fria, de contos. Pegamos o carro com destino à praia. Você lembra? Das curvas sinuosas da serra, do sol refletindo nos nossos óculos escuros, e cheiro de mato entrando pelo filtro do ar condicionado. Você me mandou desligar o ar para que você pudesse “sentir o aroma gostoso de mato molhado”. Às ordens. O céu estava claro e com poucas nuvens.
Quando chegamos à praia tratamos de nos despir, não só das roupas para ficarmos com trajes de banho, mas também das coisas ruins que tínhamos conosco. Dos agouros, dos olhos gordos, da inveja, até mesmo da poluição cotidiana de São Paulo. Nos despimos e entramos no mar.
A água, como se esperava, gelava nossos corpos  à medida que entrávamos mais e mais. Primeiro os pés, as canelas, os joelhos, os quadris, o sexo, o abdômen, os peitos, o pescoço, e, por fim, estávamos completamente imersos na agua daquele mar salgado e limpo. Você mordiscava seu cabelo “Salgado da água”. Eu ria e nós riamos. Imaginávamos futuros distantes e passados inexistentes. Até que você me disse “por que questionamos tanto o passado que já foi, o futuro que está por vir, e nos esquecemos de agraciar e aproveitar o presente que nos permeia? Por que não o deixamos nos tomar por inteiro?”. Foi quando eu sorri pra você e felizmente você sorriu de volta. Não havia frio da água gelada, agora ela era antes refrescante do que gélida. Ela nos envolvia, tal qual embrulho de presente, e nos conservava enquanto seres flutuantes e dependentes.
Ao sair da água, deitamos na areia quente embaixo de uma árvore. Aquela sombra poética, lembra? Você falava sobre o que sentia e eu ouvia, o contrario também acontecia. Foi quando, repentinamente, notei que tudo viria a ser aquilo, aquele momento. Repeti pra mim mesmo enquanto dizia em voz alta e nem entendia “eu sou louco por você, louco, doido”.
Pode acender a luz. Mas se der, só a do abajur. Gosto de ver seu sorriso assim. Gosto tanto… Não me olhe, ainda não. Só me olhe desse jeito daqui a pouco. Preciso beber mais. Não, beber não. Preciso te beber mais. Te tragar. Te degustar. Não, não sei.
Não lembro disso. Então apague a luz de novo, assim o momento que não existe não acaba.
Bruno Panhoca

Onírico

Eu sonhei com você pela milésima vez.
Você estava de aparelho e cabelo mais curto. Tirando isso, igualzinha a última vez que te vi, logo antes de eu te deixar.
Foi como uma despedida. Na verdade não foi como, foi uma despedida. Me lembro da roupa que você usava, do sorriso estampado e do que havia se passado. Me lembro o que você cozinhava. Me lembro melhor ainda da ligação, uma semana.
Você me sentia. Eu não. Eu não te sentia e eu não me sentia. Eu não me sinto mais e não sei o que sou. Aquele som da chamada ainda ecoa. Ecoa feito garfo que risca a parede do elevador. Eu me lembro de um futuro sonhado. Um futuro que eu fiz questão de escarrar no chão. Escarrei, pisei e ri. Entreguei às pragas da cidade grande. Hoje essas mesmas pragas me visitam em alguns sonhos e riem da minha cara.
Eu as questiono “o que foi?”
Elas dizem em coro “moleque burro! Tão burro…” E saem andando.
Algumas vezes me perco em salas de espelhos. E algumas tantas vezes as pragas me ameaçam. Eu escapo por cipós. Eu quero encontrar novamente o sonho que você me espera, de cabelo curto e aparelho, mas igualzinha a quando eu te vi pela última vez. Quero te sentir como você me sentia. E sei que não vou me sentir ate eu te sentir. Mas é tarde. E as pragas marcham, elas me consomem ate que eu seja uma. Sou a erva daninha do teu jardim de rosas. Assim foi, assim é e assim será.

Bruno Panhoca