Eu quero o seu plástico

Eu quero o seu plástico.
O seu fora.
O seu todo que você possa moldar ao meu gosto.
O seu dentro não me interessa.
Está por demasiada instabilidade.
É rico em imperfeições, falta:
Sorriso perfeito.
Cabelos sedosos.
Face límpida.
Corpo esguio formado em linhas.
Eu quero te ver com o olhar altivo .
Incapaz de desviar-se aos debaixo.
Aos que vislumbram suas formas e te fazem brilhar mais.
Aqueles que te acariciam com olhares maliciosos, ansiando por um lampejo de sua mirada.
É tudo que eles anseiam
da grande alma insípida, inodora e incolor que você é.
No final, é só isso que interessa.

por Rafael Pinheiro (Pinto)

O animal não tem culpa.

Burro.
Burro.
Burro.
Repito aos soluços.
Mais de três vezes,
Enquanto choro.

Qualquer outro xingamento parece singelo para mim neste momento.
Sou eu, contra mim mesmo.

Burro.
Burro.
Burro.
Por que dar-me este nome de animal?

Talvez, porque fui seu burro durante este tempo.

Deixei você guiar as rédeas.
Deixei que me colocasse o cabresto.
Deixei que ficasse a me dizer o quanto eu (poderia) estar errado.
E acreditei.

Acordei com as feridas
e com a dor que há muito tempo avisei que sentia.
Não era amor, era doença.

por Rafael Pinheiro (Pinto)

Do vazio, cheio de possibilidades.

Ah! Se todas as dúvidas pudessem ser preenchidas.
Essas lacunas…
Possuem o hábil poder de aguçar a imaginação.

 Esperam a ilusão da certeza,
e nesse vazio de esperar,
arquitetam possíveis enchimentos robustos,
bordados com aquele sabor de verdade.

Mas no fundo e só dúvida,
é pura dúvida.

É nela que eu fico,
É dela que eu me nutro.
Ela é minha, por direito.

por Rafael Pinheiro (Pinto)

Verborragia

Acreditar, crer.
Fiar-se, entregar (se), cometer (se), depositar (se), consignar (se), encarregar (se).
Contar, segredar, confessar.
São todos sinônimos de uma mesma palavra.
Mas essa eu não uso mais para você, não a revelo.
Nossa re(l)ação não mais usa e nem divide este verbo.

por Rafael Pinheiro (Pinto)

 

Pescaria

A intuição é um grande mar de águas obscuras.

Vez ou outra, um peixe sobre e passeia na flor d’água.

Às vezes, até salta.

E você pode escolher agarrá-lo,

Se apegar a ele e escutá-lo.

Ou então, pode somente contemplá-lo por um breve instante.

Porque estes peixes são assim,

Só se deixam ver e só podemos vê-los,

Por um instante.

Posso dizer que passei alguns meses a contemplá-los.

Perdi de vista todos eles.

Voltaram para o fundo.

Fiquei só, na superfície.

Esperando até que a realidade voltasse à tona.

Surra do final de expediente

Hoje eu levei uma surra.
De um garotinho de quatro anos.
(M.) cuspiu em mim, me arranhou, me xingou, me mordeu e me chutou.
Porém, (M.) tem quatro anos.
E já encerra toda a complexidade da vida humana na sua pequena existência.
Sabe o quanto é difícil desapegar, o quanto é difícil ouvir um não e o quanto é difícil quando as coisas não saem como queremos.
No final, nos abraçamos.
Concordamos em saber o quanto é difícil.
(M.) tem quatro anos, eu? Vinte e sete.
Eu aprendo dele e ele aprende de mim.
Nos despedimos, os dois, mais calmos, e com a promessa de dias melhores.

por Rafael Pinheiro (Pinto)

HíBrIdo

Provisoriamente não cantaremos o amor.
Cantaremos essa vida mista de poesia e dor.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços.
Cantaremos essa vida que rompe os laços.
Por que, afinal, a morte? A morte é uma libertação, porque morrer é não precisar de outrem.

Mas a morte está dentro da vida. Morro totalmente? Não sei da vida. Sobrevivo-me? Continuo a viver. O Sonho? Mas o sonho está dentro da vida. Vivemos o sonho? Vivemos. Sonhamo-lo apenas? Morremos. E a morte está dentro da vida.

Cantaremos o terminal.
O incapaz.
O imóvel.
O estático.
O estado de choque.
Onde a única música presente é aquela que vem dos bips de suas máquinas que viverão mais que ele.

Porque, se você olhar para o centro do universo, existe frieza lá. Um vazio. No final das contas, o universo não se importa conosco. O tempo não se importa conosco.

É por este motivo que temos que cuidar um do outro.

por Rafael Drummond Pessoa Levithan Pinheiro (Pinto)

Tópico Infanto-Nostálgico

Saudade de ser bonito só por ser pequeno.
Saudade de ser bonito por estar sujo.
Saudade de ser bonito pelo meu sorriso irregular.
Saudade de ser bonito por minhas formas arredondadas.
Saudade em ser bonito por estar descabelado.
De repente, cresci, fiquei feio.

Rafael Pinheiro (Pinto)