O Nada e a Lua

João já quase adulto só tinha livros, que ele detestava, para se agarrar. Sem muito o que fazer ele se debruçava a cada minuto nas páginas intermináveis dos tais livros. O menino só tinha uma janela, livros e uma lua. Não tinha fome, não tinha sede, não tinha amigos, nem família. Tinha ele, mas que já não era tão ele assim. E os livros, é claro. Um exemplar que falava sobre a economia mundial de um mundo já falido, outro sobre a primavera que ele nunca viu chegar, um de romance que era tão seco quanto o chão em que ele pisava e o ultimo que era um livro de fotografias de sorrisos ( cada um mais amarelo que o outro).
  Na presença apenas de si ele ia se perdendo junto ao livros. Sumia em si e cavava um buraco tão fundo que daria até para construir uma linha de metrô. O nada não o completava, nem ao menos isso. Insatisfeito com tudo ele chorava e de tão secas as lágrimas viraram sangue, então ele parou de chorar pois não queria morrer com uma hemorragia, mas também não queria estar vivo. Vivia e amava viver no limbo que depois de instantes ele passou a odiar.
  Caminhava no quarto apertado a cada livro que lia e sem querer percebeu que nele existia uma janela e no fundo do vidro dessa janela tinha um ponto branco. Ele tentou limpar com cuspe, com as mãos, pés, pele, camiseta e nada adiantou. Então tentou abrir o vidro para limpar por fora e depois de aberto o garoto viu que na verdade não era uma sujeira, porém era um ponto lá no céu que brilhava parcamente. João se espantou porque já fazia mais de 20 anos que morava ali e ele não sabia explicar o que era. Foi aos livros… eram as únicas coisas que tinha. Leu todos de forma insana para tentar achar algo que explicasse aquele ponto branco que ainda brilhava. Nada! Simplesmente nada! Ele não achou uma frase que o detalhasse o ponto brilhante. Desistiu, preferiu apenas enxergar com mais destreza o pontinho que se cansava de iluminar.
   O menino acabou dormindo sentado na janela. Acordou e o ponto ainda estava lá, só que dessa vez maior e muito mais brilhante  como se tivesse amadurecido feito uma fruta. Ele se apaixonou pelo ponto que agora parecia mais uma bola. Estava fervorosamente enamorado por ela. O garoto se entristeceu quando percebeu que aquilo era paixão. Em um dos livros que ele lera, paixão era algo ríspido e inóspito. Então chorou e não queria sentir aquilo que era a paixão. Fechou a janela e foi ler alguma coisa repetida.
  Ele já não conseguia prestar atenção no livro, na verdade nunca prestara, ficava se perguntando o porquê da paixão e o quê era aquilo. Voltou! Voltou para a janela, não aguentava mais ficar sem ver a bola. E percebeu que a bola voltara a ser o pontinho pequeno e iluminado. Achou bela a mutação e empacou-se intrigado naquele vai-e-volta. Pensou em fechar os olhos para ver se era a presença ou a ausência de seu olhar que fazia isso… e não, não era, continuava lá pequeninha. Continuou intrigado, mas não ficou triste. O garoto já não estava tão choroso assim, estava aceitando a paixão e percebendo que era mais divertido do que os livros.
   Um sorriso surgiu. Depois de tantos anos um sorriso apareceu naquele rosto. Ele agora só precisava daquele brilho. Irá ficar ali por horas, dias, anos até a sua morte. João, o menino já quase adulto não conseguiu descobrir o que aquilo era, mas sabia que fazia o coração bater forte e o sorriso ser mais largo. Sabia que o brilho fazia brilhar os olhos e enchê-los de lágrimas que já não eram mais feitas de sangue.
  Ele ficou lá por toda a eternidade assuntando aquela coisa que ora era bola ora era ponto, mas que sempre o iluminava.

  Mal sabia o garoto já quase adulto que ele se apaixonou pela Lua.

Afonso Costa

Indo à praia

Sentado em uma cadeira de um restaurante, João espera. Toma um pouco de água para acalmar a ansiedade, porém não consegue parar de pensar em sua espera. Ele é um rapaz pontual, que odeia atrasos e procura acertar o relógio assim que sente que o objeto começa a retardar.
    Impaciente, mas contido João olha de um lado para o outro procurando pela sua espera… e nada… e nem ninguém surge para suprir o exagero de ausência em seu resquício tortuoso de vida. Cheio de dores por conta de cada passo errado que deu até o restaurante, se viu sentado. Não percebeu o ato de sentar, mas quando se deu por conta até um copo d’água já tinha em mãos. E bebia, bebia, se afogava naquele líquido na esperança de que este matasse a sede da passividade de seu olhar. Porque nada tinha o matado ainda. Não a sede, mas sim ao próprio João. Ele que já teve o sonho de morrer debaixo d’água.
     Quando mais jovem, em uma manhã, João escutou a voz do locutor da rádio dizendo que a felicidade tinha que ser procurada todos os dias. O rapaz pediu a bênção ao seu pai, deu um olhar de esguelha à sua mãe já falecida em vida e partiu dizendo que iria procurar um presente para si. Não quis pensar em nada e logo saiu de casa, não teve tempo de pensar que aquela frase não passava de uma metáfora. Na verdade ele não sabia o que era metáfora, pensava que era um tipo de queijo.
      Até o final daquele dia caminhou bastante, porém só encontrava a própria cidade coberta de formigas exaustas de suas funções biologicamente robóticas. Não achou o que queria e por isso não desistiu, sabia que se andasse mais um pouco acharia o que lhe foi prometido.
      Depois de muito tempo caminhando João já não era o mesmo. O seu cabelo cresceu e mudou um pouco a sua cor, as unhas grandes e cheias de terra, os dentes podres e o corpo fedido de vida. João se sentia menos humano e mais parecido com Deus – por se assemelhar ao fruto da imaginação alheia. Andava, João nunca parou. E quando parou foi para escutar a voz do locutor da rádio parada em uma vitrine de uma loja de utensílios quebráveis inúteis à existência. O homem da rádio com a voz grave e já rouca de velhice dizia que a felicidade era uma questão de espera.
João que não era de reboliços com um sorriso aceitou a mentira que escutara… e também já cansado de andar aceitou de bom grado a pausa que poderia dar.
      Deu mais alguns passos e encontrou um restaurante que o causava inspiração com as cadeiras coloridas e as mesas muito longas. Olhar para as pessoas que estavam no restaurante dava a ele uma sensação de infinidade o que o fazia pensar que a felicidade era algo próximo daquilo. Ao sentar, João percebeu que tal sensação era insuficiente e vazia de tão grande que o infinito é. Ele tinha completa certeza que a felicidade não poderia ser inócua e sem fim. Deduziu, um pouco já tonto de tanto pensar, que a felicidade então era finita como um grão de areia e que várias felicidades juntas faziam uma praia.
      João descobriu! Descobriu o que era a felicidade que o locutor dizia, agora só faltava esperar ela chegar. João ficou esperando a praia vir, mas ela demorava. Ele começou a achar que ela estava atrasada, todavia o homem da rádio não avisou que horas ela chegaria. O que fez João pedir a terceira água – a segunda ele já tinha tomado há muito tempo.
      João viu surfistas, banhistas, socorristas… e nada da praia.
      João tomou mais um gole de sua água, agora já da sua vigésima garrafa.
      Engolia e engolia, em um dos goles o rapaz sentiu sua existência abaixar, o pulmão apertar não deixando o ar nem entrar nem sair, percebeu que os olhos não avistavam mais.

      Sentiu os pés na areia e depois um alívio. A praia havia chegado

Afonso Costa