A cor da rua em baixíssima saturação

A cor da rua em baixíssima saturação o vento corre gelado pelo meu rosto as folhas abandonam a copa das árvores atrasadas demais para partir dão adeus por puro impulso. Não é muito clara a divisão da rua e da calçada. Eu ando na rua. Ao meu lado anda meu passado de múltiplas faces. Me assombra. As ruas bem vazias e por vezes cheias de mais. Ninguém. E então são muitas pessoas que andam no sentido contrário ao meu. Tudo que passa vai de encontro à mim estou sempre no sentido contrário de tudo as pessoas as folhas o vento. Ao meu lado apenas o passado sou a única que caminha para frente ou estou indo para trás? Ninguém se toca embora aqueles dois lá no fundo estão se tocando você viu pergunto ao passado. Sinto pavor. O passado é uma criatura inóspita de múltiplas faces que toca o meu corpo crua e intimamente. Odeio que me toquem. Quando há pessoas há sempre pessoas em fluxo não param embora agora uma parou. Um homem vestindo as roupas da minha avó ou a minha avó vestida de roupas de homem não pude notar a diferença. Passo por ela quase a esbarro sinto pavor muito pavor por favor não me toca. Ele ri de mim fita à mim e ao passado com olhos delirantes como se eu fosse a única que não soubesse o segredo. A rua vazia novamente alívio agora somente eu e passado persistimos. Barulho. Olho para o lado. Um palhaço. Odeio palhaços. É um homem que acabou de ter filho está trabalhando como palhaço para sustentar a família. Mando um beijo. Continuo odiando palhaços. Várias crianças se aglomeram em volta dele. O passado pega na minha mão eu digo: por favor se você me abandonar que seja no momento em que eu estiver distraída. 

Giovanna Paiva