O estranho aparato de Sr. Grid- Parte 6

Apesar de relutante a princípio, o velho o deixou subir, afinal, sempre foram amigos muito próximos. Ainda assim, em sua atual condição de misantropo, não se sentia confortável com sua visita. Aproximou-se Adam e perguntou:
– Grid, que diabos esse negócio fez contigo?
– “Negócio”, Adam? Não menospreze minha fonte ilimitada de deleites humanos!
– Você foi acometido pela insanidade, meu amigo. Não consigo simplesmente sentar e assistir a isso. Dê-me a esfera.
Adam sabia que ele não cederia tão facilmente. Dirigiu-se a ele com certa ferocidade, a fim de tomar o aparato de suas mãos e destruí-lo de alguma forma. Em contrapartida, uma força sobre-humana surgia em seu dono que não existiria no estado anêmico em que estava. Uma batalha se iniciou entre a insânia e a liberdade, e se tornava cada vez mais intensa. Grid não queria deixar a esfera, e seu desespero crescia a cada segundo com seu instinto de proteção. Curiosamente, seu desejo neste momento era o mesmo que teve assim que tomou posse da esfera: uma arma.
O desejo foi presto realizado, e imediatamente utilizado. Risón estava morto, agora só havia Grid.
Em um momento de lucidez, o homem fitava seu amigo inerte ao chão. Percebeu a desgraça que era seu aparato, ao invés da bênção que acreditava ser. Percebeu que havia destruído a maior amizade que tivera desde sua infância. De repente seu organismo funcionava de acordo com seu estado doente, e seu coração disparou com o desespero.
Ao cair e começar a perder sua visão, só conseguia sentir ódio de tudo. Da esfera, das pessoas que a buscavam, do assassino que se tornara. E em seus últimos segundos antes do total decesso, lançou uma maldição sobre o mundo. Juntou todas as suas energias remanescentes, e fez um último desejo: uma máquina replicadora. Arremessou então sua fonte de desejos dentro desta, e sucumbiu por fim.
A máquina conseguia copiar várias esferas, com suas propriedades, e as lançava pela janela. Tantas cópias foram feitas, que logo eram suficientes para que toda a população mundial tivesse sua própria esfera dos desejos. E assim foi feito. O aparato miraculoso não era mais uma exclusividade, e sim um utensílio diário. Algumas funcionavam melhor, outras não muito, mas cada um tinha a sua.

Igor Fialkovits

O estranho aparato de sr. grid- parte 5

No dia seguinte, às seis horas da manhã, estava Nelson Grid em frente ao prédio do jornal A Página Diária, o mais famoso da cidade. O primeiro a entrar pela porta que acabara de abrir era o editor-chefe, e era exatamente ele que Grid buscava. Abordou-o calmamente, se apresentou e pediu-lhe que lançasse uma notícia sobre seu recém achado no jornal do dia seguinte. Desnecessário dizer que a princípio foi levado como uma brincadeira, mas apos uma demonstração o editor pôs-se rapidamente a trabalhar na notícia. “Esfera Mágica concede desejos a quem a possui”, dizia a manchete na primeira página, e logo abaixo, a notícia sobre o aparato verde brilhante que fora encontrada por um velho que caminhava tranquilamente.
   Logo a Rua Dr. Ariovaldo já não era mais tão pacata como sempre foi. A cada dia, dezenas, centenas e milhares de visitantes curiosos apareciam para conhecer o homem que detinha o poder da esfera dos desejos. Alguns até se diziam amigos de longa data, ou parentes distantes dele. E Grid conseguia ver uma grande oportunidade se abrindo diante de seus olhos. Saía à sua sacada, sempre que via a comoção dos visitantes, e pedia que fizessem uma fila. Apesar do caos que se gerava sobre quem seria o primeiro, a organização se fazia possível.
   Dirigiu-se, então, ao primeiro homem da fila e lhe ofereceu um desejo. Disse a ele que tudo o que precisaria fazer era repousar sua mão sobre o objeto mágico por um minuto e poderia fazê-lo. Mentia. Grid já estudara suas propriedades anteriormente. Sabia que apenas cinco segundos seriam o suficiente para isso, mas claramente adoraria que a esfera pudesse absorver mais energia para usá-la a seu bel-prazer.
     Os dias se passavam, o processo se repetia, e era adquirida cada vez mais energia alheia. Dado tempo o suficiente, a simples casa do antigo ancião transformava-se em um grande palácio medieval, ornamentada com grandes esculturas de ouro e protegida por aqueles que se puseram ao serviço em troca de periódicos usos da grandiosa esfera dos desejos.
    E o Sr. Grid desfrutava de tudo o que pudera adquirir neste meio tempo, e principalmente de ter toda uma população sob seu poder, que o venerava. Não saía mais de seu castelo, é claro, poderia ser furtado em sua ausência. Trancava-se em seu quarto, segurando seu bem mais precioso. Logo ficou pálido, com os olhos danificados, -por estarem sempre expostos à mesma fonte de luz ofuscante: o brilho da esfera-, e extremamente raquítico, dado que mal conseguia se concentrar para comer.
   Só saía quando se sentia a necessidade de adquirir mais energia. Até que, depois de alguns meses, sentiu vontade de sair por um outro motivo. Seu guarda o chamara: e pedira para avisar que um homem chamado Adam gostaria de visitá-lo.

Igor Fialkovits

O estranho aparato de Sr. Grid.- Parte 4

    – Ok… e como funciona, afinal? – Perguntava Adam, preocupado
    – Adam, você está com sono, por acaso?    – Agora que mencionou… sim eu estou. Estranho, até, eu não estava cansado quando cheguei.
    – Exatamente, Adam! É isso que a esfera faz! Ela concede desejos, mas claro, precisa de um combustível. De alguma forma ela consegue absorver a energia de quem a segura para seu funcionamento!
    – Isso não tem como ser bom, Grid. Devolva-a ao lugar onde a achou e acabe com esta loucura!
    – Adam, você não vê as possibilidades que esta esfera nos traz. Venha comigo, tive uma idéia.
   E Grid saiu com seu amigo, caminharam pela rua durante certo tempo, enquanto procurava por algo, até que finalmente o encontrou: um homem deitado em seu jardim, que quase dormia. Sinalizou a Risón para que assistisse à cena que aconteceria, se aproximou do homem e perguntou se estava bem.
    – Passei o dia consertando meus móveis! Foram devorados por cupins, durante um tempo em que estive fora. Estou exausto – respondeu o homem.
    – Certo… e se eu lhe dissesse que poderia ter seus móveis restaurados em um piscar de olhos, sem qualquer esforço braçal? – perguntou Nelson.
   – Eu não acreditaria – respondeu o homem, em tom cômico
   – De certo que não. Por isso vim te mostrar. Segure esta esfera, e mentalize seus móveis novos em folha.
   O homem obedeceu, apesar de cético, e logo em seguida foi verificar sua mobília. Era incrível: todos os seus móveis anteriormente deteriorados agora estavam intactos. Voltou para agradecer os dois homens que o ofereceram esta oportunidade, mas já haviam ido embora.
   – Pode me explicar o que foi isso? – perguntava Adam, irritado
   – Simples, Adam. Ele ganhou um favor, e eu ganhei energia para minha esfera funcionar. Agora posso fazer mais desejos, porém sem o último infortúnio.
   – Eu não concordo com isso. Você está tirando energia de uma pessoa a seu bel prazer. Pretende fazer o que, agora que já conseguiu a energia que queria?
   – Agora? Agora mostrá-la-ei ao mundo, Adam!

Igor Fialkovits

O estranho aparato de Sr. Grid- parte 3

Eram quatro horas da tarde quando o homem despertava, acometido por uma forte fadiga e enxaqueca, ao som de uma voz grave e preocupada que perguntava por seu nome. Era a voz de Adam Risón, amigo de infância do velho Sr. Grid que viera visitá-lo, como de costume, e se deparara com a imagem do velho homem inerte no chão de sua própria casa
– Nelson, que diabos aconteceu contigo?
– Adam? O que faz aqui, o que aconteceu?
Após alguns minutos, Grid conseguiu recuperar sua consciência, e assim pode assimilar o que acontecia naquele moment
o. Adam logo reforçou:
      – Ok, Nelson, estou ficando seriamente preocupado. O que aconteceu aqui? Quem é o responsável por isto?!
      – Acalme-se, Adam. Vê aquela esfera verde no outro canto da sala? Escute bem, pois essa história será um tanto… peculiar.
    E contou então a seu amigo a história da esfera, a brilhante esfera que concedia àquele que a empunhasse tudo o que mas desejasse.
       – Uma bola verde que concede desejos? Estou perplexo. – disse Adam, em tom sarcástico –  Bom, meu amigo, isso claramente não está te fazendo bem, é melhor guardar isto comigo até que suas alucinações passem.
        – Adam, seu inocente! Observe a minha casa! Desde quando tenho estátuas de ouro espalhadas por meu corredor? E como as conseguiria da noite para o dia?! – retrucou Grid.
    Risón pôs-se a observar a casa, e ficou boquiaberto. Seu amigo estava certo, realmente estava em posse de uma esfera mágica. Grid então continuou:
        – Depois de muito desejar para a esfera, eu senti uma forte tontura, e tudo ficou preto. Apenas lembro-me de ver a esfera perdendo seu brilho e… Adam! É isso! É isso!
        – É isso o que, Nelson?
        – Eu te explicarei em breve. Rápido, sente-se no sofá. E também preciso que fique com a esfera em suas mãos!
     Adam obedeceu ao amigo, sentou-se e segurou firmemente a esfera. O homem o observou fixamente durante minutos, raramente piscando. Observava-o de vários ângulos, de várias distâncias… até que viu o que queria. A esfera voltava a receber uma fração de seu brilho original, e seu amigo emitia um longo bocejo.
       – Eureka! Eureka! – gritava o velho, com imenso júbilo – eu descobri como opera o aparato!

Igor Fialkovits

O estranho aparato de sr. grid- parte 2

De volta a sua casa, o homem fitava a esfera rutilante incessantemente. Não sabia sua origem, o material de sua confecção, sua finalidade exata… mas sabia sobre sua capacidade. E mal podia esperar para testá-la. Posicionou sua mão sobre sua superfície, fechou seus olhos, e começou a pensar em tudo o que lhe agradaria naquele momento. A princípio, um desejo simples: uma xícara de café. Instantaneamente, uma aparecia ao seu lado, com café de excelente qualidade!

Começou então a redecorar seu quarto: uma televisão de alta definição, um colchão mais confortável para sua cama, novas roupas em seu armário, um computador de última geração! E presto, tudo surgia, devidamente posicionado de acordo com a vontade daquele que fazia os desejos! Ria sozinho, tamanha era a felicidade de obter tudo o que queria tão repentinamente.

E não se limitou a bens comuns, pôs-se logo a imaginar tudo aquilo que não passaria de sonhos para homens comuns: uma estátua de si mesmo talhada em prata, tapetes confeccionados de tecidos raros, vinhos importados e envelhecidos! Sua pequena casa, antes simplória, agora se assemelhava a um grandioso palácio, digno de um rei de uma potente nação.

Já não conseguia mais pensar em o que poderia querer além do que já tinha obtido, mas o homem ainda se esforçava para fazer mais requisitos à misteriosa esfera que lhe foi entregue pelos céus. Desejava qualquer coisa, por mais frívola que fosse, desde clipes de papel até livros técnicos de diversas áreas do conhecimento.

Insistia em imaginar mais objetos que pudesse adquirir, até que começou a sentir tontura. E esta fortificava-se, escurecia sua visão, diminuía sua frequência cardíaca e causava uma forte dor de cabeça. Grid largou a esfera, caminhou cego em busca de seu telefone, para pedir ajuda, mas fracassou após alguns passos. Caiu ao chão, e lá quedou-se inconsciente.

Igor Fialkovits

O ESTRANHO APARATO DE SR. GRID- PARTE 1

Era pouco mais de meia-noite quando caminhava pela rua Dr. Ariovaldo uma singular figura, alta, de olhos azuis e cabelos grisalhos, assobiando alegremente uma bela melodia. Era Sr. Grid. Um homem bondoso, lépido, na maioria do tempo… enfim, de energia invejável. Regressava, ligeiramente inebriado, de uma pequena festa com velhos amigos, dispensado de quaisquer preocupações ou infortúnios. Uma pena que este momento estivesse prestes a ser interrompido.

Estava a poucos metros de sua casa, quando, de súbito, ouviu um alarmante estrondo, junto a um vislumbre de forte coloração esmeralda. Poderia tê-lo ignorado, adentrado sua casa e encerrado a noite de forma serena. Mas a curiosidade foi sempre um péssimo hábito de Grid. Tomado pela beleza de um brilho que se atenuava gradativamente em meio a fumaça levantada por um forte impacto, seguia a esmo sua emanação, em busca incessante por sua fonte. Ao encontrá-la, pasmava.

Era uma visão demasiadamente peculiar, de fato: uma esfera verde caída do céu, inerte ao chão. De onde viera? Quem a arremessara? Por que caíra lá? Tantas perguntas, nenhuma resposta. Entretanto, isso não parecia incomodar Grid tanto quanto deveria. Não, não incomodava, o leve brilho da esfera conduzia sua concentração somente a sua beleza, seu esplendor. Agarrou-a, de imediato, e pôs-se a admirá-la.

Seu deleite, contudo, foi interrompido por um ruído vindo de algum lugar próximo ao que estava. Assustou-se. Poderia ser um assassino, um doente a solta! O medo o paralisava. Segurava a esfera fortemente, olhava para os lados, desesperado, e desejava, mais do que tudo, que tivesse uma arma para que pudesse se proteger. Para sua surpresa, no exato momento em que teve este pensamento, surgiu, em sua mão livre, um revólver calibre 22, novo em folha, completamente carregado.

O barulho? Talvez um animal que corresse pelas redondezas, ou um galho que caíra de uma árvore. Não o incomodou mais, então sua importância era nula. O importante era o fenómeno que acabara de acontecer diante de seus olhos. E Grid sabia que aquela esfera tinha algo a ver com ele.

Igor Fialkovits

IN ARTICULO MORTIS

Flutuo etéreo pelo cosmos e avante
Até me deparar com um monstro escarlate
Fita-me, analisa-me, e, frente a meu semblante
Pasma, como se assistisse a um disparate

Pergunta-me se há algum revés que me abate
Sarcástico. Já sabe bem, desde o instante
Quando me viu, que fui vencido no combate
Contra arrependimentos… não lutei o bastante

A Consciência é uma doença humana
Somada a nosso apego por simbologia
Causa a degeneração da vida mundana

Esta degeneração, intrínseca em excesso
Nos acompanha, sempre tão pungente e fria
Até o último delírio de decesso

Igor Fialkovits

Sina do artista

Sinto-me só. Rodeado, mas só.

Vejo quimeras: estou tresloucado!

Mil alienistas estão ao meu lado

A declamar sentimentos de dó


Pergunto, então, aos do reino condenado:

O que os proteje de um destino em pó?

Com as respostas, aumenta-se o nó

Convenço-me de que fui profligado


Pondero inquieto, franzindo o cenho

Minha confiança é tudo o que tenho!

Por fim, a formosa resposta avança


Trilhar o torpe rumo da paixão

-Quiçá o do mundo antigo, em contramão-

É subsistir à mercê da esperança!


Igor Fialkovits

Soneto de um dia conquistado

Vede a primorosa lua, meu amigo
Hoje, mais rútila que o sol em si
As vis tormentas que vivem em ti
Não estão guardadas, por ora, contigo

Aprecie esta prenda! Tens aqui
Um momento distante do perigo
Livra-te agora do peso do Antigo
Viva esta hipnose! O mundo sorri!

Queda-te inerte a tua cama por quê?
Torne presto a fitar a bela Lua
E reflita sobre a imagem que vê

Enquanto esta imagem se perpetua
Lembra-te: há um futuro a tua mercê
E tua história de vida inda é crua!

Igor Fialkovitz

Topo da Cadeia

Deitar-me ia sob o ardente Sol, fosse eu
Um quadrúpede errante, e acalentaria
Minha simplória carcaça, que sonho meu!
Que mal seria viver assim cada dia?

Praga! A evolução nos trouxe galhardia!
Nasci em meio a este possante coliseu
Agora o vício em música, arte e poesia
Tornou-se uma doença, e já me acometeu

Bem vindo ao grande império da Superfluidade!
Logo a atmosfera bizantina te invade
E um banquete de interesses é posto à mesa

Bebamos, então, ao surgimento da ciência
Aos dogmas, valores, e claro, à sucumbência
Da extinta maldição: a terrível Natureza!

Igor Fialkovits