Amor Reciclável

A madame exibe seus ornamentos
O cavalheiro a olha de relance
Põem-se logo a conversar, atentos
A uma possível desculpa para algum romance

Resumo a história, antes que me canse:
Ambos descansam, sem ressentimentos
Pois o desejado estava ao alcance:
Falso amor, carregado pelos ventos

É assim constroem-se novos casais
Tão intangíveis, tão superficiais
Até que os dois não se suportem mais

Esquecem-se, ou tentam novamente
Até o sentimento, antes quente
Esgotar-se, morrer completamente

Igor Fialkovits

Póstumo

Corpos em putrefação sob a terra
Entregues à mercê de um tempo vil
E dentre as lápides de corpos mil
Vejo um nome inquietante, que berra

É meu nome, calcado em anil
O triste anil do céu que me soterra
Uma mente posta à prova da guerra Interna, logo cedeu e sucumbiu

Tudo na vida é uma pressão forte
Que logo pode conduzir à morte
Não sabendo lidar corretamente
Cantos tristes, cantados em descante
Lembram-te a todo possível instante
Que não há formas de seguir em frente

Igor Fialkovits

RODEADOS E SOZINHOS

Dolorosa e sórdida idade adulta
Vilã da pureza da mocidade
Insidiosa vem a catapulta
De sentimentos, que se chama idade

Este é o preço da maturidade?
Será assim formada uma mente culta?
Quando ignora o valor de uma amizade
A “sábia” sociedade se insulta

Amigos viram fontes de dinheiro
Se há algum sentimento verdadeiro
Pode ser considerado depois

Acostume-se a viver sem amigos
Os homens cavam seus próprios jazigos
Agradeça se sobrar um ou dois

Igor Fialkovits

SONETO A UM DIA FRACASSADO

Execrado seja este céu noturno
Houve um tempo em que me trouxe deleite
Hoje impossibilita que me deite
E piora meu estado taciturno

Fracasso, não espere que te aceite
Lua! Termine seu maldito turno!
E traga de volta o céu diurno
E que este à minha vida traga enfeite

Noite tenebrosa, maior do que eu
Meu encéfalo até já se esqueceu
De que o organismo humano cansa Astro-rei!

Destrua esta noite vil!
E que incandescentes hulhas mil
Acendam o brilho da esperança!

Igor Fialkovits

TRIO DE POEMAS-PÍLULA

AMOR DE JUVENTUDE
Que dama mais formosa!
Deveria ter parado por aí…

BUROCRACIA
É modal, tonal ou atonal?
É romântico ou barroco?
Lembremo-nos de que, antes de tudo, é música!

O ARMÁRIO
Abri meu armário hoje de manhã
Havia dois pares de sapato, algumas camisetas e muitos esqueletos

Igor Fialkovits

Rondeau- Metalinguístico

Hoje nada mais me resta
E nunca nada restará
Meus amigos já se foram
Dificilmente voltam cá

Hoje nada mais me resta
E nunca nada restará
O dinheiro um dia acaba
E logo nada comprará

Hoje nada mais me resta
E nunca nada restará
Estou cansado de amores
Livrar-me-ia deles já

Hoje nada mais me resta
E nunca nada restará
Juventude se esvai
E saúde terei quiçá

Hoje nada mais me resta
E nunca nada restará
A não ser a poesia
E senão esta, o que será?

Igor Fialkovits

O estranho aparato de Sr. Grid- Epílogo

Agora morto era Grid, mas sua maldição reinava. Os homens seguiam suas vidas, cada um subordinado a sua própria esfera. Algumas produziam muito com pouca energia, outras pouco com muita energia. E logo aprenderam novas técnicas de como aproveitar os benefícios de esferas alheias, em casos extremos, assassinavam para acumulá-las. E é claro que um aparato tão insólito e fantástico como este precisaria de um nome. Nesse quesito, foi difícil chegar a um consenso. Em alguns países ficou conhecido como dólar, em outros como peso… alguns lugares até conseguiram concordar em chamá-lo por euro. Mas na verdade, o nome do objeto é de pouca relevância. O importante é seu efeito, sua capacidade de corroer o homem e reduzi-lo a uma pura massa irracional de ódio instintivo. Suas propriedades hipnóticas de subjugar um humano e fazê-lo protegê-la com sua vida. Lançada a maldição, não há como evitá-la a este ponto. Ela prossegue e se fortifica a cada dia. Estamos todos fadados a viver em função da máquina que suga energia vital e proporciona diversão em troca. Estamos todos fadados a viver regidos pela maldição de Grid.

Igor Fialkovits