Vou

Caminhando eu ia

Quando recebi olhares, risos e xingo
Caminhando eu ia
Quando fizeram questão de me lembrar que meu lugar não era ali
Caminhando eu ia
Quando quiseram me forçar um beijo
Caminhando eu ia
Quando me estupraram
Caminhando eu vou
Enquanto meu sangue escorre
Caminhando estou

Sofia Riccardi

ROMANÀH

E se dois corpos se unissem no meio da rua?

Eles se amariam?

Ou se odiariam como vemos no nosso cotidiano.

E se dois corpos se unissem no meio da rua?

Eles brigariam?

Ou se juntariam em um só corpo mescla de suor e

prazer.

E se dois corpos pudessem se unir no meio da rua? Eles

sairiam distribuindo golpes de fúria ou beijos e carinhos

de excitação.

A poética do romanàh convoca o seu mais amor, o seu

desejo, sem despejo da sua pessoa.

Ela não te julga, ela te ajuda.

Há amoR em Roma(n)àH.

Rafael Pinto

Que tribo é essa?

 

A cidade gritando…
A rua pedindo atenção…
O país dividido…
Nós…deitados no chão.
Observando cada ruído.

Uma língua Imaginária.
Corpos com poeira do asfalto.
Contato.
Sem medo.
Um grupo; Dois maestros; Um coro; Energia, o auge do dia.

Bacantes e uma jaula?
Espera, a igreja esta em festa?
Energia caindo, por que?
Esgotados? olhares atentos a nós.
O medo é a primeira reação, curiosidade logo em seguida, depois,contemplação.

Qual a nossa religião?
Qual língua falamos?

Caio Megiato

Chão

Chão no mar
o mar no chão
Mar de concreto
derretendo no sol de Sampã
que se esconde atrás de nuvens densas
carregadas
que nos chovem
enquanto pulsamos
pois sangue somos
água vermelha e volúvel
que agrupa e dissipa
no fundo
no raso
no meio
-sempre tem o meio-
na rua
no corpo
na mente

Chão, concreto e força
Os ventos de Iansã arrepiam corpos dançantes
pensantes
das putas, viados, travestis
Derretendo
Solidificando
Liquefando
Congelando
Condensando
Evaporando
numa mistura de transações
físicas
químicas
psíquicas
e dionisíacas
embaladas pela percussão
Fluindo da liquidez da chama faísca divina do tesão

Carol Consalter

*em processo da Antropofrei

Sangue Latino

Não pegou, não doeu.

Não foi certo, não foi errado.

Turvo como o mar que desemboca em minhas costas.

Mas foi terra, foi asfalto, foi Frei caneca.

Foi seco, incisivo, calculado e apontado.

Faltou um grito, um álibi ao discernimento.

Uma desculpa para eu ter meu sossego.

Quero uma água para purificar meu pé direito.

 

Guga Auricchio

1/1

A carne, na rua, sem regra
A carne, na rua, assando
A carne, na rua, existindo
Ponte para o mendigo
Esquina para a travesti
Esmola daqui. Esmola de lá
Comum de dois
Comem-se os dois
Paz, amor, tolerância
E vem o ódio
Sangue na ponte
Sangue na esquina
Comum de dois
No jornal vão parar os dois
Estatística

É como a sociedade serve os dois

Sofia Riccardi

A água fluiu.
Brotou simples.
Chegou no lado de cá.
Foi para o lado de lá.

Não era insípida.
Não era incolor.
Tampoco inodora.

Cheirava à rua…
Ocupada, caminhada, corrida, andada,
minjada, vomitada, cagada e humana.

No jogo desse espaço imundo,
Surgiram paz, mansidão, tesão e
Tolerância.

Não foi só de mim.
Não foi só dele.
Foi de nós.

Nosso desejo. Nossa prece. Nossa oração para a Avê, para a rua, para todos os nós.

Rafael Pinto