Maria Alice Vergueiro entra para a eternidade

Hoje perdemos a Grande Dama Indigna do Teatro Brasileiro. Como a data não pode passar incólume, fizemos uma seleção de fatos e frases de Maria Alice Vergueiro:

Maria Alice trabalhou com grandes nomes do teatro brasileiro e atuou em mais de 20 peças.

Estreou no Oficina com a remontagem de O Rei da Vela, em 73, no papel de Dona Cesarina, que ela acreditava ser uma forma de exorcizar sua família, particularmente sua tia-avó.
Mais tarde, quando Zé Celso foi preso e exilado e o Oficina sofria uma pesada perseguição da ditadura, salvou os rolos do filme da peça e levou-os para Portugal. Lá, vivenciou, junto ao Zé, a Revolução dos Cravos.

Em 77, fundou, com Cacá Rosset e Luiz Roberto Galízia, a hoje renomada companhia Teatro do Ornitorrinco, com a qual ganhou diversos prêmios.

Durante sua vida, traduziu textos de Brecht e chegou a dirigir algumas montagens de Garcia Lorca e Luis Rafael Sanchez.

Atuou pouco no cinema por falta de convite. E pouco na TV por não se encaixar. Era tudo careta e burguês demais.

Em 2006 lançou um CD, O Lírio do Inferno, com um conjunto de textos de Brecht. A maior parte ela já havia cantado em cena. O álbum está disponível gratuitamente em seu blog.

Em 2005 estourou com o curta Tapa na Pantera, criado por Rafael Gomes, Esmir Filho e Mariana Bastos, disponível no YouTube.
E em 2018 realizou uma “continuação” do curta, “Tapa na Pantera – O melhor Verão da minha vida!”, criado por Vinicius e Danilo Abrahão Mekari, para chamar atenção à história do verão de 1987, conhecido como o “verão da lata”. Também está disponível no youtube.

Sua última peça foi “Why the Horse?”, montada em 2015 ao lado de seu parceiro de cena, Luciano Chirolli. O objetivo da peça era fazer um ensaio de sua própria morte, pois não queria ser pega de surpresa. “Com sorte, pode ser que eu morra em cena. Se não, estaremos de volta no dia seguinte.” A peça teve sua última temporada no final de 2016, no único lugar possível para encerrar a carreira de Maria Alice: o Teatro Oficina.

Abaixo, uma seleção de frases, tiradas de sua autobiografia não-autorizada “Tapa na Pantera na Íntegra”:

“Queria muito ser convidada agora por uma garotada para fazer um on the road… meu espírito pede isso. Mas meu corpo não aguentaria. Por isso eu digo: em algum lugar estou velha. A morte está por aí. Dia desses pensei em minha própria morte imaginei algo como morrer vítima de uma bala perdida algo assim repentino, sem lamúrias, no meio da rua, atrapalhando o trânsito. Uma bela despedida.”

“Depois de ‘Tapa na Pantera’ surgiu essa fama… Após cinco décadas de teatro, foi como se meu passado não existisse. De repente meu anonimato se fez notícia. O peso dos meus 70 anos começou a desaparecer. Observo a internet como uma forma de rejuvenescimento. Estou gostando dessa experiência. Ela me deu uma nova dimensão nas relações. Virei uma adolescente.”

“Por trás do filme ‘Tapa na Pantera’, está a felicidade. É a risada e não o discurso. Se você está feliz, almeja ver a felicidade no outro. Não há nenhuma apologia à droga. O que existe é algo que extrapola o cômico, há um certo cinismo, uma certa ironia dialética. Tratamos do tema sem leviandade, à margem do tom grave dos professores da USP. O grande problema é ter o comércio disso: vender, traficar… Até porque, quando isso acontece, o fumo vem ruim, malhado. eu penso que devemos discutir a descriminalização das drogas. porém, todos sabem que, no caso das drogas, há uma grande indústria por trás que também tem haver com o mercado de armamentos. É um mundo de dragões. O ideal seria a gente ter uma hortinha! Hahahahahahaha!!!”

“…é fundamental acabar com a censura. É uma bobagem decretar o que é permitido e proibido uma criança ver. O importante é conseguir formar um juízo e dar exemplos.”

“Um artista deve ter contato com seu inconsciente, que suscita uma busca pelo prazer, pelo bem-estar, à procura do hedonismo, da satisfação de sua libido. Só que muitas vezes, ele é brecado pela razão, pela consciência. O inconsciente não é uma entidade que baixa na gente. não se trata de um momento de loucura, de transe… Não é isso. O inconsciente, quando se junta com a razão, pode ajudar as pessoas a se realizarem melhor.”

“Nunca fui uma atriz do Teatro Municipal.de meu público sempre me seguiu pelos palcos da cidade. Sempre gostei dos porões.”

“O teatro não trouxe dinheiro, mas atravessei fronteiras. Viajei muito, mais para participar de festivais de teatro do que como turista. Encantei-me com o México. Fiz turnês pela França, Espanha, Portugal, Colômbia, Venezuela, tudo muito agradável. Viajar como turista é um saco, com um grupo de teatro a uma delícia.”

Evoé, Maria!

Demétrio Abrahão

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