Tártaro 

Bastava dois suspiros. Ela entendia e bufava. Os dois suspiros entregavam todos os pensamentos. Ela lia meus olhares e o compasso de minha respiração, além de contar meus 120 batimentos por minuto. 500 piscadelas por minuto. 350 expressões faciais irreconhecíveis ao olho humano. Mas ela lia. Ela me lia e sabia. Cada risada, cada cara-lavada-de-pau, ela via. Os suspiros bastavam, ela os comia. Foram dois, três, quatro, mil. Lágrimas correm, mas o olhar inerte permanece. Ela via, ela me devorava. Digeria meus pedaços de carne, enquanto seu estômago ativo dava banhos de líquidos ácidos. Meus pedaços se separavam, se dissociavam – pouco a pouco – e lentamente eram absorvidos pela corrente sanguínea, quente, líquida, fluidez do mar; intensidade do mangue. O vermelho sangue me era enquanto eu o era. Éramos, Eros quis. Éramos e tornamo-nos essa criatura bizarra de quatro braços (os dois em excesso brotaram de nossa cintura), quatro pernas, duas cabeças…. O ser mais grotesco que tive a infelicidade de ver! No entanto, à medida que o monstro caminhava, seu corpo derretia, escamava e escorria, tornando-se em algo belo. A caminhada de quatro, as súplicas a deuses que sequer revelavam-se, fizeram-no belo. Completamente belo. Todavia, invisível. Era luz, enquanto força energética irracional, mas positivo. Sua energia transformava frutas podres em exemplares magníficos e suculentos da espécie. Caretas ácidas adocicavam-se. Afinal, quem era o ser transformador da ética? Da moral subumana? Quem era a amostra do tártaro que ascendeu ao Olimpo? A divindade filha dos titãs refém da deusificação, da adoração. Era, ou éramos, o centro. O sol, de nosso pequeno universo. Moldável, flexível, maleável, complexo, monstruoso, arrebatador.

Bruno Panhoca

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