Luz apagada

Eu vou contar uma história. Então, por favor, faça silêncio e apague as luzes. Não quero que você olhe nos meus olhos enquanto falo. Tenho vergonha… E um pouco de medo.
Era fevereiro. Ventos quentes e úmidos, sol cansativo mas ameno de vez em quando. E a sombra poética, fria, de contos. Pegamos o carro com destino à praia. Você lembra? Das curvas sinuosas da serra, do sol refletindo nos nossos óculos escuros, e cheiro de mato entrando pelo filtro do ar condicionado. Você me mandou desligar o ar para que você pudesse “sentir o aroma gostoso de mato molhado”. Às ordens. O céu estava claro e com poucas nuvens.
Quando chegamos à praia tratamos de nos despir, não só das roupas para ficarmos com trajes de banho, mas também das coisas ruins que tínhamos conosco. Dos agouros, dos olhos gordos, da inveja, até mesmo da poluição cotidiana de São Paulo. Nos despimos e entramos no mar.
A água, como se esperava, gelava nossos corpos  à medida que entrávamos mais e mais. Primeiro os pés, as canelas, os joelhos, os quadris, o sexo, o abdômen, os peitos, o pescoço, e, por fim, estávamos completamente imersos na agua daquele mar salgado e limpo. Você mordiscava seu cabelo “Salgado da água”. Eu ria e nós riamos. Imaginávamos futuros distantes e passados inexistentes. Até que você me disse “por que questionamos tanto o passado que já foi, o futuro que está por vir, e nos esquecemos de agraciar e aproveitar o presente que nos permeia? Por que não o deixamos nos tomar por inteiro?”. Foi quando eu sorri pra você e felizmente você sorriu de volta. Não havia frio da água gelada, agora ela era antes refrescante do que gélida. Ela nos envolvia, tal qual embrulho de presente, e nos conservava enquanto seres flutuantes e dependentes.
Ao sair da água, deitamos na areia quente embaixo de uma árvore. Aquela sombra poética, lembra? Você falava sobre o que sentia e eu ouvia, o contrario também acontecia. Foi quando, repentinamente, notei que tudo viria a ser aquilo, aquele momento. Repeti pra mim mesmo enquanto dizia em voz alta e nem entendia “eu sou louco por você, louco, doido”.
Pode acender a luz. Mas se der, só a do abajur. Gosto de ver seu sorriso assim. Gosto tanto… Não me olhe, ainda não. Só me olhe desse jeito daqui a pouco. Preciso beber mais. Não, beber não. Preciso te beber mais. Te tragar. Te degustar. Não, não sei.
Não lembro disso. Então apague a luz de novo, assim o momento que não existe não acaba.
Bruno Panhoca

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