Onírico

Eu sonhei com você pela milésima vez.
Você estava de aparelho e cabelo mais curto. Tirando isso, igualzinha a última vez que te vi, logo antes de eu te deixar.
Foi como uma despedida. Na verdade não foi como, foi uma despedida. Me lembro da roupa que você usava, do sorriso estampado e do que havia se passado. Me lembro o que você cozinhava. Me lembro melhor ainda da ligação, uma semana.
Você me sentia. Eu não. Eu não te sentia e eu não me sentia. Eu não me sinto mais e não sei o que sou. Aquele som da chamada ainda ecoa. Ecoa feito garfo que risca a parede do elevador. Eu me lembro de um futuro sonhado. Um futuro que eu fiz questão de escarrar no chão. Escarrei, pisei e ri. Entreguei às pragas da cidade grande. Hoje essas mesmas pragas me visitam em alguns sonhos e riem da minha cara.
Eu as questiono “o que foi?”
Elas dizem em coro “moleque burro! Tão burro…” E saem andando.
Algumas vezes me perco em salas de espelhos. E algumas tantas vezes as pragas me ameaçam. Eu escapo por cipós. Eu quero encontrar novamente o sonho que você me espera, de cabelo curto e aparelho, mas igualzinha a quando eu te vi pela última vez. Quero te sentir como você me sentia. E sei que não vou me sentir ate eu te sentir. Mas é tarde. E as pragas marcham, elas me consomem ate que eu seja uma. Sou a erva daninha do teu jardim de rosas. Assim foi, assim é e assim será.

Bruno Panhoca

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