Das lembranças não vividas

De todas as incertezas mais incertas, desse caos programado e dessa reflexão completamente desmiolada, pensei naquilo.
Não foi como sentir agua escorrendo pelas minhas costas depois de tomar chuva.
Também não foi como comer chocolate depois de 12 horas de jejum.
Muito menos foi tomar caldo de cana com limão no calor. Foi mais do que isso. Foi como voltar a ver figuras nas nuvens (coisa que – se me permitem dizer – esvaiu-se da mesma forma que o sonho de ser bombeiro). Curiosamente você me levou a infância e me fez sentir que eu não tinha nenhuma responsabilidade.
Foi simples andar pelas ruas escuras mal amanhecidas. Foi simples saudar a curiosidade do céu alaranjado e pensar que aquele céu era meu e teu e mal sabíamos. Foi mais simples sentir que quando dois olhos te olham só pode ser algo a mais. Não foi simples aceitar algo a mais.
Fica fácil criar histórias, criar versos, criar prosa, criar tudo quando penso. Fica fácil montar cenas hollywoodianas, com direito a Richard Gere e Julia Roberts. Fica fácil te ver aparecendo enquanto subo as escadas rolantes de uma loja pra te entregar uma rosa. Fica fácil nos observar enquanto o vento bate em seus cabelos e molha da chuva e bagunça na cama e enrola no lápis e prende na fita e encobre meu rosto, seu rosto, e entra na boca e balança de um lado pro outro numa sincronia precisa de um Balé Bolshoi.
Fica fácil ver nossos quadris se encaixando e nossos lábios tocando e o sexo e o adeus e o até logo e o estou com saudade e o voltei e o volta e o vim e o fiquei. Fica fácil pedir pra que você acorde amanhã comigo porque o jeito que seus olhos miram o meu nariz e meu cabelo mal cortado e meu lábio rachado e minha pele mal cuidada diz que você quer. E basta dois tragos pra você pedir um copo de cerveja e dizer que quer mais e que chega e que está bêbada e que Caetano é ótimo e Cazuza mal interpretado e pega um papel e escreve de letra de forma com garranchos embriagados que não quer mais me deixar de lado e me quer por ali naquele cubículo de 30 metros quadrados. E que a gente pode transformar aquele cubículo no nosso cubículo e preencher com fotos e realizações e discussões e acertos e erros e rotina. E chegar sempre no fim do dia sentados juntos comentando e dando risada e lembrando do dia em que eu escrevi esse texto e mal sabia do nosso encontro muito menos dos mil desencontros e que era pra ser e eu digo que não, não era pra ser, “era, é e será” em todos os pretéritos, principalmente no imperfeito que é nosso relacionamento, porque concordamos que o perfeito é chato; no presente; e, no nosso futuro mal planejado, nada realizado, mas perseguido e quisto muito bem quisto, também visto e maluco. Como eu estou agora. Doido. Pensando em você. Que nem sei quem é.

Bruno Panhoca

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