O voto da menina

Uma menina acordou para votar. Uma menina, jovem, acordou, se vestiu e foi votar. Uma menina acordou e caminhou para poder votar. É a primeira votação dessa menina. É a última votação dessa menina.
Toda vez que ela vota, ainda tem o medo de ser agredida e presa na saída do colégio eleitoral. Nunca a deixaram dizer o que pensava. Toda vez que ela vota, ela dá graças a Deus que ela pode votar a vontade. E ser contrariada a vontade também.
Os três dias antes da votação são sempre os piores. Durante esses três dias, ela sonha com homens que, fazem anos, não vê. Ela sonha com homens que ela ainda consegue sentir na pele, na carne, na dor. Ela sonha com quem lhe cortava as cordas vocais, mas nunca conseguiu calar seu coração valente.
Essa menina é caluniada por ser quem é. Essa menina é xingada por ser quem é. Essa menina continua com o rosto erguido mesmo quando a ofendem em rede internacional.
A acusam de não se encaixar nos moldes da feminilidade, mas ela não se importa, afinal, ela é só uma menina. A acusam de máscula, por ser rígida, mas isso só mostra o medo que sentem ao ver uma menina com o seu poder. A acusam de compactuar com as pessoas que ela mesma manda prender, mas ela ainda assim continua seu trabalho.
Fazem doze anos que essa menina comemorou por seu padrinho. Fazem quatro anos que essa menina comemorou por si. E hoje, novamente, essa menina recebeu o carinho de todos aqueles por quem ela vem estudando e aprendendo.
Essa menina que foi votar, mesmo com seus sessenta e seis anos, ainda é mais menina e sonhadora do que qualquer outro brasileiro. Essa menina que foi votar, mesmo com seus quinhentos e catorze anos, sabe que o Palácio do Planalto também virou lugar de menina se aventurar.

Vitória Fava

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