Estação Final (21/5/14, 18:00)

Passo a catraca
Estação Paulista
Meu nascimento?
Foi aqui mesmo
Nos tridentes da sociedade
No cume da “selva de pedras”
Na seca do nordestino
Na enchente do sudeste
Nasci
Todos me olham

“Próxima estação Carrão”
Minha mãe e o Ford Ká
Aquele carro era um castelo
Ao olhar de uma criança
Um carro básico é um castelo
E o mundo
Tão grande
Que equipara-lo a um ovo é plena idiotice

“Próxima estação Paraíso”
No subúrbio
Todos se conhecem
Todos são amigos
Todos se protegem
O subúrbio é o paraíso utópico da metrópole

“Próxima estação Tiradentes”
O paraíso se vai
O subúrbio fica para trás
Confidências inconfidentes
Separação
Morre a criança
Para nascer o feto abortado de um adulto

“Próxima estação Sé”
Tudo acontece no centro
Nele, todos olham um bebê ao nascer
Depois, ninguém se olha
A utopia acabou
A realidade cai como pedra
E fios desencapados em meu cérebro
Curto circuito
A vida torna-se real

“Próxima estação Luz”
Corri, pulei, ultrapassei obstáculos para chegar ao fim do túnel
Tudo era escuro e caótico
Desordem. Ilusão. Vitupério
Túnel efêmero
Pelo menos a luz aparece
Nela, uma solução:
Felicidade minha não é cerceada na tua

“Próxima estação Consolação, solicitamos a todos que desembarquem do trem”
Nela fiquei
Consolo a mim mesmo
Por todas as oportunidades perdidas
Que o tempo fez questão de devorar como um banquete real
Consolo os outros
Por cercearem a felicidade própria
Na de outros outros

A felicidade é utópica como o subúrbio
Ela passa rápida
Como as coisas vistas da janela de um Ford Ká
E na realidade
A estação Consolação é sempre
O ponto final.

Rafael Abrahão

Deixe uma resposta