Deitado na rua estava um homem. Um sujo, largado e viciado homem. De tão humano que ele era, foi abandonado na sarjeta pelos homens que passavam. Invisível e ininvisível: um homem deitado na rua.

Os ônibus passavam e paravam e desciam e lotavam e iam embora, passando longe da ausência presente do tal homem. As luzes lhe batiam no rosto, mas o homem, escuro, não se atingia.

Aos poucos, o homem deitado na rua foi ficando mais e mais invisível.

Sumiu.

Alguém pode vir ajudar? Uma dupla de mulheres, claramente estranhas, se abaixaram para tirá-lo dali. Seus chamados fizeram do homem deitado na rua visível. Seus chamados fizeram a normalidade da existência de um homem deitado, jogado, sujo, fedido, chapado e sozinho ser deixada de lado. Carregado, o homem foi deitado novamente no chão, fora do alcance dos carros.

Uma jovem ofereceu a garrafa de água que trazia consigo. Por descuido, olhou-o nos olhos. Eram olhos perdidos e pedintes. Eram focados e cansados. Eram próximos, mas tão distantes. Eram Humanos.

As mulheres foram embora. A comoção foi embora. A invisibilidade foi embora. Agora o homem estava estirado no chão. Um incômodo estava estirado no caminho. Um cigarro doado lhe ocupava a boca incapaz de falar. Os braços abertos em cruz. Qualquer um que olhasse veria exatos ou piores os sofrimentos de Jesus.

O cigarro apagou. O homem sentou, caiu, sentou, caiu, rodou, rolou, sentou e por fim se levantou. Andou bambo e esdrúxulo por entre as pessoas que o queriam invisível. Aos tropeços, chegou perto da jovem que lhe dera água. Ela fez que ia ignorar. O homem lhe estendeu a mão, estava de novo de pé na rua.

Se olharam nos olhos novamente. Era claro o medo dela quando lhe entregou a mão. Era claro o seu desconcerto. Era claro que não tinha nada que pudesse fazer. O homem quase caiu na rua. A jovem o puxou de volta para a calçada. Pediu para que ficasse sentado até que se sentisse melhor e, assim que pode, fugiu.

Deitado na rua, estava o homem. Ele rolara novamente depois que um homem de bem lhe gritou coisas sem sentido. As pessoas olhavam sem estarem ali. A jovem se escondia atrás de um pilar para não olhar. O trabalhador do terminal cuidava para que ninguém passasse por cima do homem.

E o homem estava deitado na rua.

Vitória Fava

Deixe uma resposta