Limbo

Ela passou os seus dias
Enterrada dentro de seu próprio fígado
Congelado externamente mente
Aquele frio metal ganhava diariamente uma arma dura
Moldada remodelada forjada
Na ponta de um lápis
Onde miletos de pequeninos gafanhotos
Formavam de vidro translucido
O mosaico
Que veria
Quem visse
Quem procurasse
A menina retina
Saberia
Que por de trás daquelas pupilas
Através do orifício
Rota única d’alma
Sedenta sangrenta
Havia de fato aquele estranho olfato
Musgo amanteigado pelas lágrimas do amor

Enterrada até os paus de canelas
Observava absorta
Entrar sair
Vir ir
Chegar partir
Nicho perpétuo
Cheio de redondas peludas curvas
Infinitas bolinhas de ferro ardente
Que vez ou outra formavam
Verdadeiras alegorias carnavalescas
Onde máscaras flutuavam ao seu redor
Impregnadas por um vazio tão imenso
Que inundavam os corredores de azul
Líquido correndo nos veios do céu
Sugados pelo grande ralo do esquecimento

Caminhando ainda enterrada
Só se lembrava do que não foi
De onde não esteve
De como não era
E passou os seus dias
Neve nos pés
Vento no ventre
Água nos pulmões
E na cabeça chamas
E esquecia-se de se lembrar
E se lembrava de se esquecer
Dia após dia
Centímetro por centímetro
Que ali
Lá onde o invisível se torna visível
O silencio é eloquente
A música da solidão cala
E aquele bicho gordo e pesado
Flutua e dança
No compasso das batidas em câmera ultralenta
Das asas de um beija-flor
Todos os dias percorriam a sua medula
Despercebida

Porque as mãos estavam ocupadas procurando os seus próprios dedos 

Carol Otoni

 

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